sábado, 15 de junho de 2013




A ideia de que historicamente o Brasil é país avesso a manifestações é, no mínimo, equivocada. E os processos de apagamento da história de luta dos pobres e descontentes em nossa sociedade é tão violento quanto o cassete que quer intimidar quem protesta.

sábado, 6 de abril de 2013


Conseguiu uma hora na manicure hoje. Era querer demais que fosse a Cris, sua preferida. Mas não importava, não via a hora de arrancar a pele morta, envernizar a queratina da ponta dos dedos. A profissional pergunta: pé ou mão? Eram os dois, mas ela chegara atrasada. Não tem celular, não tem relógio, está desorientada, não-situada.
Resignada, pensa que já não pode olhar mais para as mãos. A mão, responde. 
A TV diz que a seleção de futebol joga contra a Bolívia. Início de partida, ela se rende, fica: gosta da bola chutada como capacho. Repara mentalmente que a barba faz bem a Neymar. A mulher termina a cirurgia superficial e faz o curativo esmaltado na ponta dos seus dedos. Ela se sente melhor, mais leve e diz que vai ao banco pagar as contas que a esperavam ansiosas. Dirige. Passa na frente de um boteco e olha desatenta, mas nota o mesmo tiozinho que lhe dissera que "jardinava 'sua' árvore" plantada na frente da casa que nem era mais sua. 70 reais. Agora ele está cumprindo o turno da tarde noutro boteco, não mais naquele que fica na frente da casa que não é mais sua. 
Segue pensando nessas coisas enquanto ruma para o banco. Prometeu à manicure que voltava para curar os pés. 
Desce do carro. Um "tio" chapado declama 'pá arrumá uma moedinha pá nóis'. Ela balança a cabeça como quem não quer afirmar, mas sinaliza um tímido sim com o indicador. 
Sai do banco. Quase não lembrou da senha, mas tem memória de elefante. Fora do carro outro tio chapado espera, prostrado do lado da porta. Cinquenta centavos. Ele pede pra um deus abençoá-la por ter acabado de servir-lhe a próxima cachaça. Liga o rádio, bate a chave no contato. Elza Caetaneada viscera que o haiti é aqui, o haiti não é aqui. 
Volta para "fazer o pé". A manicure de ocasião lhe espera. A preferida sente pena por não ter agenda, para que na intimidade terapeutica do ofício apreenda um pouco de seus últimos meses. Ela também lamenta. 
Na TV, Galvão B. fala da 'festa da torcida do Brasil' que o canal inventou. 
E ela escreve imersa num escalda-pés. 
"É do Brasil": 3 a 0 e ela nem percebeu. 
A cabeleireira nota: tá estudando? Não! Tá fazendo uma redação? Sim! Tou fazendo uma redação! Nossa, que menina estudiosa, em pleno sábado! 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Mussum ressuscitado em propaganda.


Da série: notícias de jornal



Mussum em propaganda da VW


Não sou ligada em TV. Menos em propaganda. Mas vale pelo remake da SP do Viaduto do Chá (o Anhangabaú é lugar consagrado de protestos) e pelas "piadinhas" pra ajudar a situar o contexto. A música é groove e lembra a versão do Simonal, cantor e performer negro que ajudou a vender muito carro nos 70 e foi tachado de delator no contexto do regime. A relação entre musica popular, futebol (a seleção de 70 campeã do México ganhou fuscas de Paulo Maluf, prefeito de SP à época, pagos com dinheiro público, óbvio!) e a ditadura também figura na "baratinha" (como eram chamados os fuscas-carros pretos de polícia na época) que no comercial é outro clichê atualizado. Qualquer semelhança com o "Pra Frente Brasil" dos 70 e "Milagre Econômico" dos 80 com o Fusca 2013 e o milagre atual não será mera coincidência: elas não existem. No mundo do capital, além de estímulo ao consumo, propaganda também é memória. Em tempo: gosto de futebol, gosto do Cazé, de fusca, de Led Zeppelin, disco voador, rádio AM, do Mussum e do Simonal. Mas o comercial deve ter sido feito por gente que ultrapassada que acha que as mulheres não sabem nada de carro. Desconhecem o fato básico de que ninguém nessa vida pode saber de tudo.

Em tempo: Dirijo muito bem!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Natas são natas

Da diferença:
- Cuidado que o chão está molhado, sim?
- Ah, obrigada [e saindo, vou fechando a porta atrás de mim...]
- És brasileira?
- Sim.
- Diga-me cá uma coisa: o que é creme de leite? É maionese?
- São natas!
-Ah, natas! Mas não pode ser: natas são natas!

E refiz todo o caminho de sempre, agora com um sorriso no rosto.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Em um relacionamento sério com Frantz Fanon.

Edição Brasileira, 2008. UFBA

sexta-feira, 25 de maio de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Dumbolino

Hoje meu cachorro saiu de casa sozinho, sem coleira e sem avisar.
Só consegui encontrá-lo no fim da tarde, depois de ter espalhado cartazes expondo meu número de telefone pela cidade.
Dia 17 ele faz aniversário. E resolveu antecipar a comemoração, declarando independência.
Ele saiu as 7 horas da manhã para estudar no EEBA, fazer estripulias com as crianças e comer a merenda. O caseiro tomou conta e já os dois se amavam como se eu nunca tivesse existido. 

Antes de voar com suas orelhas, Dumbo lê Lévi-Strauss para chamada oral